Contos de Apartamento: Ao som de La Bohème
Eu estava ouvindo a canção La Bohème, na voz de Jacques Brel. Ouvia-a repetidas vezes, enquanto saboreava um vinho tinto e sentia o vento soprar. Era uma noite fria e eu estava sozinha em meu apartamento, localizado no n° 15, na Rua das Flores. Sentia-me tomada por uma sensação de êxtase e indiferença. Não me interessavam as mensagens que vibravam em meu celular, nem tampouco o frio que tocava meu corpo. Fui até a janela e acendi o décimo segundo cigarro, enquanto observava as serras ao fundo e a cidade vazia. Bebia mais uma dose, e outra e mais outra, enquanto a canção continuava. A melodia me envolvia e eu cantarolava o refrão: La Bohème, La Bohème, Ça voulait dire on est heureux. De repente, vi-me sentada no sofá aos prantos. Era na verdade angustiante ficar à espera de um sinal, mas era preciso aceitar que tudo havia terminado. Levantei-me e disse para mim mesma: Eu tenho que ser forte. Olhei-me no espelho e não me reconheci. Nunca imaginei que o término de um relacionamento iria me abalar tanto. Mas às 2 horas da madrugada, todo sentimento torna-se mais intenso e nos faz chorar como crianças em busca de colo.
Seria aquela, mais uma madrugada de insônia, a folhear velhas revistas e a revirar algumas gavetas em busca de algo para preencher o vazio. Coloquei mais uma vez minha playlist que combinava com esses momentos. A canção Vapor Barato era uma de minhas preferidas. Comecei a cantar lentamente: Oh sim, eu estou tão cansado, mas não pra dizer que eu não acredito mais em você, enquanto tomava mais uma dose de vinho. No fundo eu adorava um drama, talvez fosse influência do meu signo ou algo do tipo. Mas naquela madrugada, a dor não era drama. Maldita hora em que nossos olhares se encontraram, em que os corpos se moldaram em uma noite qualquer. Vem assim sabe, como um desses sentimentos no qual a gente coloca muita fé, e de repente, já estamos entregues por inteiro. Mergulhamos de cabeça, até que ficamos distantes demais da superfície.
Sentia-me pequena na imensidão do meu quarto. Não suportava a ideia de minha vida se transformar nesse caos. Há dias que a saudade batia forte e que as lembranças me deixavam sem chão. Eu precisava de um refúgio. Arrumar um novo emprego, fazer uma longa viagem. Sim! Uma viagem me faria bem! Qualquer coisa que me levasse para longe de você! Precisava abandonar essa cidade e sentir-me livre. Tomei um banho na tentativa de aliviar a tensão. Em seguida, já comecei a arrumar as malas e me alegrar com a ideia da viagem. Fiquei eufórica, organizei a bagunça do meu quarto e relaxei um pouco. Partiria bem cedo para a capital. Talvez por alguns dias me esquecesse de você.
Publicado em: 26/08/2019
Texto: Thais Andressa
Foto: Thais Andressa
