Festival de cultura traz o artista para perto do público
- Felippe Frigo
- 28 de mai. de 2019
- 5 min de leitura
A abertura do espaço para manifestações artísticas foi o diferencial

Pintura de muro durante o evento, o público podia interagir
Outono, final da tarde, uma janela no último andar, uma pessoa, um pôr do sol, momento único na dança cósmica. No céu uma paleta de cores avermelhadas, arroxeadas, escuras e claras se abriu, fechamento de mais uma jornada do Sol sob a superfície da Terra. Tal espetáculo da natureza era só o prelúdio de uma noite inspirada e regada de cores, movimentos, sons e conversas profundas.
De última hora apareceu alguns amigos que animaram de sair na noite de sábado, procurávamos um evento diferente, com música ao vivo, gente diferente, lugar aprazível para apreciar a noite estrelada. Assim fomos até o Psychedelic Circus - Festival de Arte e Cultura, que aconteceu no dia 06 de Abril no Quintal das Bruxas, bairro da Colônia do Marçal. Ninguém conhecia o local, as expectativas tomaram conta, cada passo era dado em direção a um desconhecido. Entramos por um lindo jardim bucólico, luzes ambiente faziam a composição do local que contornava uma pequena casa. Isso já me fez retornar ao tempo de criança, lembrando das casas de tantas avós, aquelas de sangue e outras de consideração, comecei a me sentir mais feliz, mais acolhido, o início de uma conexão com o lugar. Depois da bilheteria, para entrar no lugar, tínhamos que passar por duas cortinas vermelhas, como se estivéssemos entrando no picadeiro de algum circo, ao passar por ela, o vislumbre de aterrissar no meio de todo espetáculo.
Uma mistura
A cultura psicodélica teve seu auge na década de 60, apoiada pelo movimento Hippie, influenciou fortemente em diversos aspectos da cultura popular como moda, artes plásticas, música, teatro, circo, literatura e muitas outras. O psicodelismo também se referia aos efeitos de drogas alucinógenas muito usadas e abusadas na época que se refletiram em várias obras de arte e abertura de novas percepções.
Misturar psicodelia e circo em 2019, 50 anos depois do festival de Woodstock, até poderia não dar muito certo. Quem afirma isso é Allen Medeiros, conhecido também como “MaiZena”, formado em Teatro pela Universidade Federal de São João Del Rei e um dos organizadores do festival.
“O nome Psychedelic Circus, psicodelia, circo psicodélico, as pessoas ficam um pouco receosas. Quando o festival tem uma programação diversa e você se propõem a se abrir, vai, você é engolido pelo evento, pela energia, aquilo modifica energias, aquilo faz e cria inspirações.”

Jogo de bambolê, o contato com vários artistas diversificaram o ambiente
Psicodelia
O festival começou às 14 horas, tendo apresentações musicais, atividades circenses, declamações de poemas, slackline. O ambiente estava tomado de cores, crianças, artistas, era difícil saber quem estava ensaiando e quem estava apresentando, todos de excelentes habilidades! Ao cair da noite deu-se início ao Ritual do Fogo, misturando dança, música, tradições, envolveu a todos que estavam ao redor de uma grande fogueira.
Este ano foi a segunda edição do festival que reuniu cerca de 54 artistas de diversas áreas. Isso gerou uma efervescência cultural como frisa MaiZena:
“Por mais que tiveram várias artes, todas tinham essa pegada e essa energia da psicodelia, ou do circo ou dos dois juntos. E a ideia é a união de novos projetos, de criação, de convidar um poeta e um DJ de música eletrônica e apresentá-los um ao outro e durante um set de música eletrônica o poeta expressa a arte dele. É um momento que as pessoas irão estar abertas por causa da música e a poesia entra para trazer um pouco de ideias, de reflexão.”

Pintura feita ao longo do evento, cores e curvas fazem a psicodelia
Circo
A ideia de um lugar circular, coberto por tenda, onde artistas poderiam apresentar suas habilidades ao público foi se tornando real a partir de 1768 com um inglês chamado Philip Astley, mesclando exibições de habilidades equestres, muito famosa na época com atrações de palhaços, malabaristas e acrobatas. Estava aí inaugurado o Circo Moderno. Com essa mesma receita de misturar diversas artes, foi sucesso com o público o espaço aberto a apresentações e “primeiras aulas” com malabares, fitas, equilíbrio que aconteceu durante a tarde e se alongou durante a noite. Perguntado sobre as dificuldades em se fazer este tipo de evento, Allen desabafou:
“O nome circo alguns se aproxima, muitos se afastam, o nome psicodélico também. Não fizemos um evento cliché. O nome limita um pouco o evento...somos contra cultura de massa, em favor da cultura popular, damos murro em ponta de faca, tentamos levar para essas pessoas uma outra forma de ver uma festa.”
Em outra entrevista, concedida por Cláudio Alberto, um dos organizadores do festival, professor do Curso de Teatro e do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UFSJ e autor do livro recém publicado “Fascínio Circense - Arte e Pedagogia na Escola de Circo”, complementa sobre as condições de se trabalhar a arte nos dias atuais:
“Quem trabalha com arte tem o couro grosso é vacinado e sabe que faz algo vital, algo essencial para que não reduzamos a vida a sobrevivência, a luta do pão. Arte é prazer, sonho, fantasia, magia, símbolo, arquétipo. A arte nos liga com as camadas mais profundas do inconsciente coletivo.”
Ao andar pelas cidades percebemos muitos locais de uso público sendo subutilizados ou até mesmo abandonados e uma crescente demanda do público de locais para expressão artística, esportiva e cultural. Perguntado sobre como ele vê a demanda do público em relação a festivais de arte, Claudio disse:
“Eu vejo que existe mais do que uma demanda, existe uma necessidade de espaços abertos para que estas pessoas doces se encontrem. Na cidade e região nota-se a reprodução da reprodução. É uma cultura de cópia. Faltam espaços que abriguem o novo, o autoral, o experimental, o revolucionário, o anárquico e o iconoclasta.”

Criança aprende a manusear “malabares”
Pessoas
O evento contou com a presença de um público bem diverso, crianças, jovens, adultos, famílias, excursões. Vieram pessoas das cidades de Ouro Preto, Itabirito e Belo Horizonte. O valor da entrada foi simbólico visto que grande parte dos artistas estiveram presentes sem cobrança de cachê, esforço louvável, quando o investimento em cultura não advém do estado, cabe ao artista junto com o público não deixar que a arte se perca.
O estudante Gabriel Simpson, 24 anos, contou um pouco da sua experiência no festival:
“Achei o evento muito rico pela diversidade de atrações, públicos e sensações. Um lugar e condições onde todos se respeitam e tem o objetivo em comum de ser independente.”
E completou:
“É importante pra mim perceber que há gente engajada em realizar tais atividades e se comprometer com o coletivo de forma prática, através da arte, nas sensações e sentimentos das pessoas.”

As pessoas com certeza foram o charme do lugar
Fiquem ligados que para o 2º semestre de 2019 deverá ocorrer outra edição do festival. Para o público em geral é um excelente programa que alia a diversão com o aprendizado e ao artista, é o lugar perfeito para apresentar sua arte, se aprimorar, trocar experiências e abrir novas portas da percepção.
Quintal das Bruxas Avenida Luiz Giarola, 667C, Colônia do Marçal São João Del Rei - Minas Gerais
Publicado em: 28/05/2019
Texto: Felippe Frigo
Fotos: Jessica Carvalho, Kesia Naves e Valentina Heusi