top of page

Barroka: Uma sonoridade identitária

  • 10 de out. de 2018
  • 7 min de leitura

Anderson Ferreira (33), cantor e estudante de Música

Vivia ouvindo, de todo mundo: “Anderson, você tem uma ‘puta’ voz, devia cantar”. Não sabia ou não conseguia perceber isso.

Foi vítima de abuso, dos 13 aos 23 anos, por alguém que considerava um pai. Ocorreu durante um longo período na cidade natal, só se dando conta da gravidade da situação bem mais tarde. “Pessoa com posição social privilegiada. Trabalha próxima à minha mãe. Outro dia mesmo a abordou, perguntando por mim e pedindo para enviar-me um abraço”.

Passa a mão na vasta cabeleira e relembra, sem perder o ritmo da fala, de quando participou como cantor em um evento religioso em São João e se viu cantando ao lado da pessoa. “Gente, não pode [isso]”. Daí ter cantado muito mais “forte”, naquele dia, do que em outros.

Foi a gota d’água para denunciar, há pouco mais de um mês, afirma. Contrariando um pedido materno, acreditou ser a opção correta, preferível a um confronto pessoal, sem se importar com a repercussão. Recebeu apoio no órgão público para que se identificasse, em vez de permanecer anônimo, corajosamente aceito.

É por tais razões, alega, que antes não se sentia bonito, não se sentia um “ser que cantava”, não se importava com a questão, por mais que os outros exaltassem a sua voz.

De novo, passa e repassa a mão no cabelo abundante e explica o quanto a Barroka simboliza os “nãos” que o acompanhavam desde a adolescência: os das autossabotagens, os “nãos sociais”, o de ter um “pai negro que não se aceitava como negro, que dizia ‘jumento’ a torto e direito para quem julgasse por bem, que era racista e parecia ‘exibir’ a esposa loira como se fosse um troféu”.

Sem nem tomar um folego, eis que surge a Barroka para ilustrar, com uma voz rouca e poderosa, a herança inequívoca da musicalidade afrodescendente. “Essa potência eu herdei dele. De dentro da família, tive o exemplo do que não ser [pai] e tive e ainda tenho o da minha mãe, que se separou com a nossa ajuda”. Do irmão, destaca a honestidade, mas também a diferença do olhar mais radical e frio, que não mira a arte. Para a avó, ele devia (e foi criado para) ser diplomata.

Vários estágios, desde o de morbidade prolongada até o de tentativas de suicídio, foram percorridos na última década. Há dois meses, tomava remédio para dormir. O sono então ficou suave, na sala do local onde mora com os “meninos”: Rafael (22) e Jonatas (18), ambos de São Paulo, dos quais diz cuidar tal qual “mãe”. Aos poucos, garante, o apartamento anterior vai sendo transformado em um espaço cultural aberto e gratuito, certamente sob ocupação da Barroka.

Esclarece que a oportunidade de expelir essa força, essa energia e de conseguir dormir bem de novo é ótima. “Minha capacidade de superar é com a Barroka, porque o Anderson não teria coragem. Ela é esse canto, essas vozes que moram em mim, uma soma da amarração dos ‘nãos’ com um ‘eu lírico’, onde eu ativo as minhas memórias afetivas e jogo nas vozes, entende? Por isso acho importante falar [ao cantar]: o meu ato de ser, estar e permanecer é um estado de resiliência, tenho que continuar”.

Descreve, satisfeito, o encontro de dias atrás, com o seu primeiro professor de canto, Emanuel - profissionalmente se apresentando em uma ópera em Nuremberg (Alemanha) -, que lhe disse o quanto estava feliz em vê-lo agora no Instagram, assumindo essa voz que já despontava lá pelos 14 anos de idade: “Nossa [Anderson], você tem uma baita voz, tem que cantar onde for”. Uma voz que o levou, por exemplo, a cantar com o grupo de teatro Ponto de Partida, quando ainda morava em Barbacena, numa época em que eles não tinham dinheiro.


Vida acadêmica


Trabalhava durante o dia na Jean Tecidos, no centro de Barbacena, fazia cursinho à noite e devorava pipocas doces (era o que o dinheiro comprava), quando foi aprovado no vestibular da UFOP, em 2008, no curso de Música/Canto Lírico. Já se sentia diferente naquela época, a galera tinha um poder aquisitivo maior, vivia em bares. Nunca gostou de beber, por causa do pai. Alcoólatra, batia nos filhos e na esposa, até que ele e o irmão interviram, após uma convivência de 27 anos.

Transferiu-se para o mesmo curso na UFSJ, em 2009. Ali, durante as aulas de Artes da [professora] Letícia, conta que coincidia a fala [da Barroka] com as vestimentas azuis, eram o seu costume. Assim, os novos colegas evoluíram o apelido para “Barroco Blue”. Com o tempo, o que mais se ouvia era “Barroco”, “Barroco” e lá se foi o “Blue” para escanteio.

De repente, a conversa é interrompida, vem de perto um chamado: - Ô Barroka! Na sequência, um “e” de falsete de cá cumprimenta um “ó” de barítono de lá. Um diálogo sonoro, de uma nota só, entre um fã e a Barroka, sem mais nem menos, e sem palavras. “Tá vendo, esse carinho não tem preço”.

Ainda sorrindo, retoma a conversa, informando que passou parte de 2009 e todo o ano de 2010 na casa da mãe, em Barbacena, vencido pela prostração.

No primeiro semestre do ano seguinte, tentou retornar várias vezes a São João para retomar o curso de Música. Sem sucesso, pois quase sempre dava meia volta ainda no trevo. Recorda de ter conseguido chegar, uma vez, até a portaria do Campus Trancredo Neves e, simplesmente, ter dado meio volta. Não suportava a ideia de ser visto pelas pessoas, tudo o que queria era ficar invisível.

Retoma o curso, finalmente, na segunda parte do ano de 2011, mas se sentindo ainda bem desconfortável. “Sabe quando você fica igual a um bicho? Não conversava mais com as pessoas”. Surgiu a oportunidade de ir para Portugal, onde ficou por três meses. Na volta, mal frequentou a universidade e logo emendou outra temporada na casa da mãe.

Retornou a São João em 2013, decidido a ficar financeiramente independente da família. Trabalhou muito tempo como garçom em vários locais da cidade e também em Tiradentes. No fim do ano, passou em novo vestibular da UFSJ, agora para Teatro. Ao final do quarto período, a desilusão: “Vi que não era a ‘minha’”.

Dessa vez, porém, a desistência tomou outro rumo. Há mais de um ano, trabalhava como bolsista no Indetec [Incubadora de Desenvolvimento Tecnológico e Setores Tradicionais do Campo das Vertentes], pertinho do prédio do curso de Música. Caiu a ficha: “Gente!”.

Fez mais um vestibular da UFSJ e conseguiu completar dois períodos do curso de Música, em 2015. Ainda inquieto, em 2016, obtém mais uma aprovação na universidade, como futuro bacharel em Educação Musical.

O desafio não tardou, com mudanças drásticas na vida pessoal e familiar. Na contramão da própria história, lançou mão da corrida e da malhação, determinado a driblar a depressão e a suportar as noites de insônia.

Até que uma dor infernal no pé jogou tudo ladeira abaixo.

Câncer superado, vida que segue, formatura, em breve, será uma realidade.


Barroka (Lançamento: 2018)


Ao ser questionado de onde vem o nome Barroka, nem hesita: “Das derivações da minha vida, começando com o apelido ‘Broca’, em Ouro Preto, porque comia, comia, comia, falava, falava, falava”. Com o tempo, adotou “Barroco” em razão da vivência - e convivência - em ambientes barrocos da cidade de origem, onde desde cedo cantava de forma a “encher” os espaços.

Improvisa, de leve, numa voz límpida e sem falhas: “Se eu fosse um raio de sol, na igreja eu nem entraria”. Sofria exigências ao cantar, de elevar mais e mais a voz. Sem trégua, porque sabiam que tinha voz para isso. Tinha também, o mesmo potencial de timidez, razão de muitos beliscões: “Canta, menino! Mais alto!”.

A versão final do nome veio praticamente de um descuido, ao se apresentar em um tradicional evento em Tiradentes, durante o período de carnaval. “Perguntaram sob qual nome eu seria anunciado, tinha porque tinha que ter um. Usei o ‘Barroco’, mas o público preferiu gritar ‘Barroka’. Eu deixei. Foi ali que ela surgiu, oficialmente”. Adquiriu nessa época a primeira máscara da Barroka e sua primeira performance: o “jogo do contente” (As Aventuras de Poliana].

“A Barroka, querendo ou não, é também uma pesquisa cultural, que desenvolvo com a Larissa, do curso de Psicologia [da UFSJ]. Pode ser definida como uma ‘organização’ de tudo o que passei, é um projeto de vida, que tem como objetivo principal trazer alegria”. Complementa, dizendo que ela é uma artista que se veste de um jeito próprio, se mostra na rua, canta e se apresenta nos mais diversos locais, cidades, países.

Registrou a Barroka em cartório, no dia 22 de maio, com logotipo e tudo o mais, planejando o lançamento para novembro deste ano. Local: Coreto Maestro João Cavalcante, situado no centro de São João del-Rei, atualmente em reforma. “Porque passando por lá um dia, a caminho da aula, descobri que o seu tombamento histórico se deu em 14 de junho (2007), mesma data do meu aniversário! Tem mesmo que ser ali”.

Pensa abrir o evento com a “Ave Maria”, do Guarany, mesma música executada pela banda do 11º Regimento, por ocasião da inauguração do coreto, em 1922. Depois apresentará um repertório especial, possivelmente terá composições da Barroka. Para encerrar, uma bateria de escola de samba, a dos Metralhas (Grêmio Recreativo Escola de Samba Irmãos Metralhas, de São João del-Rei).

Pensativo, abaixa a cabeça por um instante, penteando com os dedos o cabelo, mais uma vez, um gesto que assina tanto pessoa quanto personagem. Levanta o olhar e a voz: “A Barroka é um ato de resistência. Ninguém cala essa voz”.


Depoimento: Rafael Nascimento (36), músico e estudante de Jornalismo


"Conheci o Anderson alguns anos atrás, quando estudava música, e logo percebi que era uma pessoa que se diferenciava do padrão. Sua voz marcante se sobressaía às outras nas aulas de canto, porém o que chamava mais a atenção eram a sua dificuldade em se encaixar nos métodos tradicionais e a sua personalidade forte.

Após um longo tempo sem encontrá-lo, (o re) conheci (n) a personagem 'Barroka', durante o Inverno Cultural da UFSJ, edição 2018. Entoando uma variedade de cantos que vai desde o erudito, passando pelo sacro e popular, a 'Barroka' circulava pela cidade chamando as pessoas para rodas de oração e de dança, sempre direcionadas pela sua voz potente e sua presença marcante. Essas reuniões aconteciam antes e depois de eventos musicais ou mesmo em locais onde se concentrava um grande público.

A personagem, para mim, é uma união de vários elementos da região, dos corais, das 'Verônicas', das tradições populares, e sintetiza a miscigenação cultural que é característica nossa."


Texto e foto: Lorene Souza/POO – Por Outro Olhar | Entrevista realizada no Campus Dom Bosco – UFSJ, em setembro de 2018



 
 
 

Comentários


Posts Em Destaque
Posts Recentes
Arquivo
Procurar por tags
Siga
  • Facebook Basic Square
  • Twitter Basic Square
  • Google+ Basic Square
bottom of page