Encantos e Divergências da Morada no Interior
Chegou o dia e naquela noite embarquei, ansiosa, num ônibus com destino a São João del-Rei, Minas Gerais. As aulas já haviam começado e por conta de documentação, estava quase há um mês atrasada em relação ao meus colegas.
Apenas no início da manhã do dia seguinte, o ônibus chegou à estação da cidade pois são, aproximadamente, dez horas de viagem da capital paulista até o meu destino: minha nova casa. Foram três dias para encontrar um lugar para ficar e encontrei uma república tradicional.
No terceiro dia, minha família foi embora, cena triste vê-los descendo o morro e eu ficando lá, sozinha. Estávamos felizes pela minha conquista mas agora era “por minha conta”.
Em São Paulo não existe a cultura de calouros -”bixos” como é falado por lá- andando com placas que demonstram a qual casa pertencem, os trotes são diferentes: Os meninos raspam a cabeça; em São João, eles ganham diferentes cortes de cabelo por cerca de seis meses. Haviam festas para frequentar, para organizar e para trabalhar.
Também existiam regras, tarefas de casa designadas para quem estava chegando e compromissos. Estava sendo bombardeada de informações, tudo era novidade. A vida fora de casa havia começado oficialmente e eu pensava: “Será que darei conta?”.
Não dei conta dessa parte e me mudei outra vez para morar com uma amiga que também cursa jornalismo na mesma sala que eu. Nunca havia morado em casa, agora já tinha experiência em duas.
Com tudo pronto na minha nova morada, as descobertas e os passeios pela cidade começaram.
Falando em passeio, descobri que por aqui chamam a calçada de “passeio”, o biscoito de polvilho de “torradinha” -o que é difícil de assimilar-, e aos poucos o “ué” vai sumindo dos meus ouvidos, sendo substituído por “uai”.
Nunca havia visto tanta igreja pertinho uma da outra. Aqui, isso existe e os sinos tocam sempre para lembrar a todos que elas estão lá, como se fossem imperceptíveis ao olhos: Grandes obras de arte!
Às vezes a beleza não fica apenas com a arquitetura, a vista do alto da Igreja da Nossa Senhora das Mercês é muito boa para reflexão.
Mais uma memória auditiva que criei além do soar dos sinos, foi a da maria fumaça partindo, de quinta-feira a domingo fazendo o seu trajeto inaugurado desde 1881 com destino a Tiradentes, cidade histórica aqui perto. Os sons de buzinas de motoqueiros no horário de pico correndo entre os carros já não são mais ouvidos.
Quando saio à rua por aqui, as pessoas esperam o meu “Olá!”, “Bom dia!” e eu as vejo me olhando, esperando isso de mim, mas de onde eu venho nós mal olhamos para os lados: entramos no metrô atrasados, no trajeto cada um em seu celular, descemos nos nossos destinos acompanhando os grandes relógios de rua para sabermos se há tempo para ir andando ou se devemos correr, os olhares mal se cruzam e não é por falta de educação, é o tal do tempo.
Os porteiros, o pessoal da limpeza, nossos colegas, pessoas que vemos no cotidiano são cumprimentadas normalmente. Analisando São João, os paulistanos seguem o conselho de mãe ao pé da letra: “Não fale com estranhos!”. Hei de me acostumar com as relações interpessoais da cidade.
Já se foi um semestre, ainda há muito o que conhecer, a universidade é o meu lugar favorito por enquanto, seja em qualquer um dos três campi. É material, ajuda a lembrar-me o que eu conquistei.
Amizades foram feitas, lugares foram conhecidos, sentimentos foram despertados, a saudade de casa bate à porta do coração com a mesma intensidade que as lágrimas brotam nos olhos, mas ainda há muito para escrever no capítulo que estou redigindo. Todos os dias escolho ficar, ainda há muita tinta na caneta.